segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Planejamento: perda de tempo ou um exercício amoroso?

Um dos momentos de maior desgaste para a maioria dos professores, é sem dúvida, a hora de planejar.
Desde a formação acadêmica até a atividade profissional, nossos colegas se queixam com frequência, considerando o ato de planejar enfadonho, custoso e muitas vezes desnecessário.
Penso que uma das razões é o fato de que o planejamento quase sempre emerge de conteúdos pré-determinados, desprovidos de significância relevante, coerente com a realidade dos alunos.
De fato esta é uma questão antiga. Lembro que no extinto magistério, as estagiárias preenchiam formulários imensos, constando os passos estratégicos- como motivação, desenvolvimento, síntese e verificação - repletos de recursos didáticos e pára-didáticos. Ao enfrentar as salas de aula, se deparavam com realidades completamente diferentes do que era planejado. Os flanelógrafos, os cartazes de prega, o material dourado eram utilizados, quase sempre sem uma preocupação com a construção do saber do aluno, apenas com a eficácia na transmissão dos conteúdos.
Como resultado, as 4 horas gastas e as noites mal dormidas, debruçadas sobre pastas de estágio, mimeógrafos e formulários se esvaíam em momentos de frustração e sofrimento. Passado o susto, as estagiárias iniciavam a busca pelas respostas às questões que martelavam em suas mentes: O que ensinar? Como ensinar? - E raramente -Como aprender?
Hoje nos cursos de licenciatura, embora os recursos tecnológicos sejam outros, as incoerências entre o que se planeja e o que se faz permanecem.
Esta é a primeira razão para o professor resistir ao planejamento.
Outro motivo, são as cobranças e pressões sofridas. O sistema educacional que impõe conteúdo, modo e tempo para aprender, a escola que não flexibiliza, nem tampouco contextualiza e o próprio professor que tão voltado está para o seu próprio umbigo, não percebe que o ato de planejar é um exercício de amor, de doação e de busca pela excelência.
É preciso, caros colegas e futuros educadores, compreender que o planejamento não é algo passivo e não precisa ser entediante e desgastante.
Quando desejamos fazer uma sala de aula diferente, quando queremos que os alunos sintam-se em paz consigo e com o outro, queremos ofertar o que há de melhor. E para tanto, é necessário planejar.
Não precisamos mais daqueles formulários e relatórios intermináveis, e aqui vai um recado para os coordenadores - não precisamos mais de excesso de recursos, sem uma ressignificância do processo ensino-aprendizagem. Precisamos, sim, de investigação, pesquisa e diálogo, muito diálogo. Os atores deste cenário educativo devem buscar uma harmonia entre si, respeitando as diferenças de tal maneira que um enriqueça o outro, com sua bagagem e suas idéias.
O registro se dá de maneira a não dispensar o essencial a qualquer plano organizado, com tema, objetivos, metas e ações bem estabelecidos. Mas é preciso que o planejamento seja o espelho do professor e reflexo da realidade dos seus alunos, das necessidades sucitadas no dia a dia, do fazer pedagógico.
Ter uma profissão, casar, ter filhos, estudar, passa por um planejamento que inicia com o desejo. A educação não pode ser diferente. É preciso desejar, e, tendo uma visão clara daquilo que se deseja, planejar, fazer, avaliar e refazer quantas vezes for necessário.
Os padrões excessivos só servem para negar a liberdade e a autonomia do professor, mas o padrão bem revisado, recriado, com a "cara" do professor, é ao contrário, instrumento de uma prática educativa muito feliz.
Para aqueles que ainda não descobriram o quão prazeroso é o ato de planejar, escreverei numa postagem próxima algumas sugestões.
Ótimo trabalho e muita paz!

sábado, 25 de agosto de 2007

A Verdadeira Liderança na Educação

Se tem uma característica necessária a todo educador é a capacidade de liderança.

Assumir as rédeas do próprio destino, organizando metas e ações com afinco, determinação e uma grande dose de generosidade fazem a grande diferença entre o professor e o educador de sucesso.

O desejo por comandar e determinar os caminhos a serem trilhados pelo outro é tão remoto quanto a própria história da humanidade. Algumas pessoas são educadas de maneira que a submissão, a insegurança e o medo se fazem mais presentes. Outras, mesmo tendo uma educação castradora ou não, mantêm a sua aptidão para a liderança. Entre elas encontram-se os que têm capacidade para administração, gestão, política, sacerdócio (líderes religiosos) e educação.

Como transformar essa potencialidade em competência? Como agir no momento e espaço exatos, garantindo resultados satisfatórios? Como atingir o estágio de profissionalização desejada, equilibrando a ânsia pelo poder com a hierarquia à qual estamos todos submetidos, nos grupos sociais?

Não há receitas do tipo "10 lições para atingir o sucesso" que respondam estas questões de tal forma a mudar os rumos de qualquer educador, mas compartilho com vocês algumas das lições que aprendi e aprendo, as quais foram preponderantes para a minha formação pessoal e profissional.

Não seguirei a linearidade do tempo, pois as transformações não ocorrem como um relógio e um calendário, mas numa mistura entre passado e presente, determinando os passos futuros.

Foi nas minhas andanças educativas, realizando estudos de casos ocorridos nas salas de aula de diversas escolas de Salvador e do interior baiano, convivendo com as mais distintas situações, dialogando com professores, alunos, professores-alunos, na realização de projetos de Alfabetização, Suplência, Pré-Universitários e Formação Continuada, que aprendi uma das mais valiosas lições:

_É preciso conhecer a si mesmo de tal maneira que as ansiedades, o orgulho e a vaidade sejam trabalhados, abrindo espaço para sentimentos e atitudes que bem desenvolvidos culminem no sucesso.

É preciso que tenhamos humildade, generosidade, curiosidade investigativa, honestidade e amorosidade para sermos verdadeiros líderes nesta empreitada educativa.

Humildade para aceitar as próprias limitações e cegueiras mediante si mesmo e o outro; para pedir perdão, se perdoar, e perdoar o outro infinitas vezes, sem se preocupar com medidas e quantidades. Ter consciência das limitações do próprio conhecimento e da ciência mediante a vida e o processo de aceleração contínua da atividade humana.

Generosidade para trocar informações e saberes, reconhecendo os valores do outro; compreender que cada comunidade tem a sua cultura e os seus costumes, necessários à sua existência e que ao ensinar, devemos estar prontos para aprender, através de uma audição que permita-nos compreender a beleza existente em cada estratégia pessoal, grupal ou acadêmica para resolver os problemas e desafios diante a realidade; generosidade para reconhecer o valor existente nas grandes coisas que quase passam por despercebidas, como o amanhecer, o entardecer, uma cantiga de ninar, uma valsa, o silêncio, a maravilha de todos os sentidos que nos possibilitam perceber e tocar no mundo, deixando-o nos tocar.

Curiosidade investigativa. O educador deve buscar o conhecimento científico e o conhecimento da realidade para alicerçar o seu trabalho. Para tanto é preciso manter a nossa liberdade que se caracteriza também no exercício da curiosidade. Querer investigar os mecanismos de aprendizagem, a história pessoal, familiar, cultural e sócio-política de cada grupo, de cada aluno é essencial. Não basta, contudo, investigar; é preciso ter um espírito relativizador, demasiadamente humano. Daí a necessidade de não nos limitarmos a determinadas áreas do conhecimento. Para educar com conhecimento de causa e profissionalismo, é preciso estudar antropologia, psicologia, política e neurologia, por exemplo. Saber de que maneira a memória funciona, como sentidos e saberes se relacionam, como as comunidades se organizam e se estruturam e manter a liberdade, inerente a todo o ser humano, desalinando-se e conscientizando o outro do seu papel no processo de conquista de si mesmo, do outro e da construção de uma nova realidade.

Distinguir conceitos como liberdade, hierarquia e responsabilidade é essencial ao estabelecimento de uma ordem necessária. Não falo da ordem arbitrária, que manipula, nem tão pouco da hierarquia ditadora e meritocrática, mas de uma compreensão das regras, dos papéis de cada um e do respeito que se deve estabelecer na relação eu-outro, a ponto de permitir a troca generosa de informações e saberes concorrendo com o crescimento mútuo.

É preciso que o educador tenha honestidade consigo mesmo, no processo constante de auto-conhecimento, assumindo as escolhas e as consequências, sem nutrir sentimentos de culpa ou vingança. Honestidade para reconhecer os próprios erros e os erros alheios como parte do processo de crescimento, como mecanismo de aprendizagem e sucesso e não como sinais de fracasso.

É preciso praticar o exercício da amorosidade constantemente, imprimindo amor em tudo que nós, educadores, olharmos e tocarmos. É o amor que possibilita a conquista desses itens anteriores e de outros que vocês já identificaram e aqui não se encontram. É o amor, capaz de superar a vaidade, o orgulho, a intolerância e as animosidades geradas pelo preconceito e pelo desejo de assumir o poder a qualquer preço. O amor bem compreendido nos faz superar a própria inércia e avançar em busca do estudo, da pesquisa e do compartilhar. Amor não significa, na minha visão limitada, ingenuidade e aceitação submissa de tudo, mas reconhecer a intenção que existe em tudo, inclusive na educação, a ponto de promover uma revolução pacífica, liderando com sabedoria, humildade e generosidade os grupos sociais e a escola na construção de um presente mais feliz.

Ficamos por aqui. Sinta-se à vontade para deixar seu comentário.

Um abraço. Até a próxima!

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